Caminhada pela zona portuária: camadas de memória

O segundo encontro (25/10) do ciclo d10584079_873115729400315_4727547855875149224_ne oficinas do projeto Imagens Expandidas propôs uma caminhada guiada pela cidade. Arquitetura, ruas, monumentos e o movimento dos transeuntes nos contavam um pouco sobre a história da região carregada de marcos simbólicos. Felipe Nin, pesquisador e integrante do Coletivo FotoExpandida se propôs a ser nosso guia, nos ajudando a identificar pontos importantes sobre a história que permeia esse circuito.

Começamos na Praça Mauá, mais exatamente na entrada do mais novo Museu de Arte do Rio (MAR). Antes da saída, propomos exercitar o olhar – mesmo que o objetivo  não fosse exatamente fazer fotografias. Ali estávamos também recém-saídos da experiênci10629880_873115889400299_8386004686645252274_na de construir um visualizador. Este veio a nos servir como modelador de nosso olhar, nos ajudando a compreender como a combinação entre luz/enquadramento/lentes constrói imagens. Após o exercício, olhamos para o entorno. Bem em frente ao Museu se estende aquele que durante a década de 30 foi o maior arranha-céu da América Latina e abrigou por anos a Rádio Nacional no Rio de Janeiro. Conhecido como o edifício “A Noite” (por também abrigar por anos a sede de um jornal de mesmo nome), atualmente, o prédio já compartilha o espaço, bem mais verticalizado, com muitos outros de mesma ou maior altura.

1233359_873116059400282_292536232527047952_n Após uma breve conversa sobre  o significado de um sofisticado museu de arte em meio ao um ambiente ainda precário repleto de bares e casas noturnas, – e o questionamento de como esse Museu de fato dialoga com os habitantes da região – seguimos em direção a Rua Venezuela onde nos deparamos com o edifício totalmente abandonado que entre 2005 e 2011 foi ocupado por um grupo organizado de sem tetos. A ocupação foi batizada Zumbi dos Palmares. As famílias foram despejadas em 2011, exatamente no mesmo período em que as obras do Porto Maravilha se instauraram na região.

Seguindo, entramos pela Rua Sacadura Cabral de onde saímos diretamente na famosa Pedra do Sal, conhecido como berço do samba e reduto da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro. Se durante os séculos XVIII e XIX o local servia como passagem dos escravos que carregavam sacos de sal vindos das embarcações, a partir do século XX se tornou uma referência de resistência negra. Local onde tocaram os maiores sambistas do Brasil, ainda hoje a Pedra do Sal é imersa em música, atraindo milhar1535560_873116099400278_1575939691659553687_nes de pessoas semanalmente.

Recentemente moradores que se auto-intitularam quilombolas conseguiram o reconhecimento do território como Quilombo da Pedra do Sal. O local é considerado uma herança material e imaterial de seus ancestrais negros. Subindo a escada esculpida em pedra entramos no Morro da Conceição de onde já podemos avistar o Morro da Providência, a primeira favela do Rio de Janeiro. Seguimos então descendo pelo Jardim Suspenso do Valongo, reformado pela segunda vez desde que foi erguido durante a violenta Reforma Pereira Passos. Com quatro estátuas gregas e um jardim projetado, o cenário destoa de seu entorno – a Rua Camerino – onde vemos um modesto fluxo de comércio nos espaços que durante o século XIX abrigavam os armazéns de vendas de escravos.

Descendo o novo Jardi10689809_873116369400251_7053594417947664874_nm e seguindo pela rua Camerino, entramos no Cais do Valongo, também conhecido como Cais da Imperatriz. Esse talvez seja o local que melhor simboliza a tentativa de apagamento da memória negra na zona portuária carioca. O antigo Cais do Valongo foi durante boa parte do século XIX o porto onde desembarcaram milhares de escravos vindos da África. Após a proibição do tráfico, com a chegada da Imperatriz Teresa Cristina que se casaria com o futuro Rei D. Pedro II, o Cais sofreu uma reforma e foi sobreposto pelo Cais da Imperatriz. A memória, até então apagada, foi reacendida com as obras de intervenção do projeto Porto Maravilha quando foi então redescoberta esta outra camada da história.

Para encerrar nossa andan10710976_873116429400245_7461771627922530720_nças, saímos em direção à rua Pedro Ernesto onde se encontra o Instituto Pretos Novos (IPN), parceiros do Coletivo FotoExpandida. O local que hoje abriga um instituto cultural e de pesquisa é também um sítio arqueológico.  Em 1996, os donos do terreno encontraram por acaso – durante obras na casa – o antigo Cemitério de

Escravos Pretos Novos. Era para lá que escravos recém chegados já mortos – por isso o termo Pretos Novos para designá-los- tinham seu corpo levados para serem enterrados sem sepultamento. Para um escravo, ser enterrado de forma indigente, sem r10291087_873116562733565_4156647762720725450_nitual adequado, era uma das piores coisas já que significaria o impedimento de reencontrar seus antepassados após a morte. Depois de conhecer um pouco mais dessa história, pudemos também caminhar mais adiante e conhecer o prédio que abriga a ocupação urbana Mariana Criola. As famílias que ali vivem simbolizam um exemplo da resistência pela moradia e reforma urbana em um território que sofre cada vez mais com o crescimento da especulação imobiliária fruto de um projeto global de cidade.

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